sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

El Codo de Los Andes

Em 2008 estive em Samaipata e tive a oportunidade de vivenciar uma iniciativa de turismo comunitário, chamada Eco Turismo Eco Andes, onde, com apoio italiano, uma pequena comunidade de agricultores, chamados aqui de campesinos, se organizou para oferecer aos turistas uma caminhada em meio aos vales profundos, cobertos de floresta e que depois subia aos topos das montanhas seguindo trilhas muito antigas, provavelmente milenares.

El Codo de Los Andes - ou 'Cotovelo dos Andes'

A trilha passava por alguns mirantes muito impressionantes até chegar à região da Comunidade Bella Vista de onde se avistam muitas pontas de montanhas em meio a uma paisagem natural deslumbrante, chamada pelo pessoal de Samaipata de “Codo de los Andes” ou o “Cotovelo dos Andes”. Na época fiquei muito emocionado com a experiência, ainda mais ao avistar Condores e ao saber que estas trilhas foram percorridas por Che Guevara e sua tropa na época da guerrilha.

Portanto, ao voltar a Samaipata busquei logo um meio de retornar ao trecho final da caminhada, pois não teríamos tempo de quase todo o dia para refazê-la. Combinamos com o guia Tiburcio Aguilar Llanque da Samaipata Tours e saímos bem cedo do El Pueblito Hotel em direção a comunidade Bella Vista, a cerca de 35km de Samaipata, numa estrada cheia de paisagens muito lindas.

Ao chegarmos às proximidades do Mirante da comunidade, paramos na casa de David Coca Ortiz, um dos líderes da comunidade, para pedir autorização para percorrermos a parte final da trilha, expliquei que tenho interesse em divulgar a experiência deles e fico sabendo que tudo que vivenciei em 2008 foi abandonado, por diversos problemas entre a comunidade e algumas operadoras de turismo e mesmo por dificuldades internas da comunidade.

Assim, mais um produto turístico espetacular se torna indisponível pela simples falta de articulação entre as partes e pela mania latina de dificultar as coisas. Afinal, se a trilha da floresta está arruinada, necessitando de reparos e a comunidade não tem a capacidade de fazer estes reparos, porque simplesmente não liberar a trilha no trecho final que é menor, mais fácil de fazer e muito mais bonito? Uma simples inversão do sentido da trilha iria resolver boa parte das questões e a comunidade Bella Vista, as operadoras de turismo e a associação de guias de Samaipata poderiam oferecer aos muitos turistas interessados a oportunidade de vivenciar uma trilha deslumbrante, de acesso relativamente fácil e com um visual inigualável.

Subida ao Codo de Los Andes

Assim, vamos subindo as montanhas depois de atravessar as pequenas roças da comunidade em busca do ponto mais alto para tirarmos boas fotos. O tempo está meio sem graça e depois de esperarmos por umas duas horas para ver se a luz melhora, resolvo seguir a trilha e descemos parte das montanhas até o local onde, em 2008, ao avistar um casal de condores, pisei numa cobra e descansei na única sombra existente que eram dois pés de Ipê-amarelo-do-cerrado ou os famosos Pára-tudo do Mato Grosso, árvore símbolo de nossa região que vamos encontrar aqui no topo dessas montanhas andinas.

Victor Friedlander fotografando no 'Codo'

Feliz da vida em poder retornar a essa paisagem que tanto me impressionou, ainda mais que estou com meu filho e aprendiz de fotógrafo, procuro pela mesma sombra dos Ipês-amarelos e no colo da mãe natureza, cercados pelos elementos naturais, tomamos um bom lanche, repondo nossa energia para iniciarmos o regresso, subindo as montanhas em direção à comunidade.

Mario Friedländer

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Santa Cruz a Samaipata

Estamos em Santa Cruz conhecendo melhor essa metrópole, cheia de carros e exposições de arte. Também aproveito o variado comércio local para resolver um problema sério causado por uma renomada loja de equipamentos fotográficos de São Paulo, a Consigo Foto e Som.

Antes da viagem comprei pela internet uma cabeça de tripé apropriada para a realização das filmagens que faremos, me cadastrei, escolhi o produto, paguei imediatamente e fiquei esperando o envio por sedex. Fiquei três dias esperando adiando nossa saída, até que, depois de enviar um email que nunca foi respondido, resolvi usar o velho e bom telefone. Foi assim que descobri que a Consigo não tinha o produto, não me avisou, não respondeu meu email, se eu continuasse esperando a encomenda chegar eu estaria em Cuiabá até agora.

Muito chateado, cancelei a compra e pedi o reembolso do meu dinheiro. Só faltou eles me devolverem os três dias perdidos esperando meu produto chegar, isso eles não me devolveram, mas perderam um bom cliente e vou alertar pelas redes sociais os meus colegas de trabalho, pois comigo a Consigo não vende mais nada pela internet.

Assim, depois de muito procurar, acabei achando um tripé completo com cabeça para vídeo e só me resta arrumar as mochilas e irmos a Samaipata - nosso primeiro destino turístico de verdade na rota para o Pacifico.

Samaipata é uma pequena e antiga cidade localizada a 120 km de Santa Cruz, fica a cerca de 1600m de altitude, com um clima e paisagens exuberantes. Sempre penso na Chapada dos Guimarães quando vou a Samaipata, e na verdade, essa é a melhor comparação a ser feita. Os endinheirados e amantes da natureza bolivianos e estrangeiros que vivem em Santa Cruz, além de muitos outros estrangeiros, estão comprando terras e lotes para a construção de suas casas e chácaras de final de semana. 

Vista da Vila de Samaipata

Os turistas mochileiros e exotéricos também devem, obrigatoriamente, visitar a região que abriga boa parte do Parque Nacional Amboró, um dos mais importantes e belos da America Latina. Há vários atrativos naturais que permitem um intenso contato com a natureza local, onde encontramos além de muitas montanhas e cachoeiras, morros gigantes de arenito vermelho e florestas tropicais, inclusive um espetacular Bosque de Samambaias Gigantes.

A cidadezinha feita em grande parte de casas coloniais de adobe, tem pequenas pousadas e alguns armazéns que vendem produtos naturais de todo o mundo, tudo voltado para os turistas estrangeiros que vem passar temporadas por aqui, curtindo a vida e a natureza.

Não bastasse tudo isso, vamos encontrar nas proximidades de Samaipata uma das jóias raras da arqueologia americana - o “Forte ou Fortaleza de Samaipata” - o maior monólito rochoso esculpido do mundo, com centenas de nichos e monumentos escavados na pedra, muitas ruínas de edificações militares e outras datadas do período pré-incaico e incaico.

Forte Samaipata

O lugar impressiona pela monumentalidade e pelos mistérios que lhe são atribuídos. A bela localização em meio ao alto das montanhas, o cuidado com o qual os bolivianos montaram um Parque Arqueológico e Eco-turístico e também um Museu em seu redor servem como lição à nós brasileiros. Mas voltando um pouco no tempo, de Santa Cruz a Samaipata é possível tomar ônibus, que sai do antigo terminal rodoviário. Mas o transporte mais utilizado são táxis e vans que saem principalmente pela manhã e continuam saindo durante todo o dia. Os interessados vão ao escritório da Expresso Samaipata e ficam na rua esperando algum táxi chegar que levam até 7 passageiros e toda a bagagem. Não sei bem como conseguem, mas esse é o sistema e funciona bem.

Apesar dos riscos, há uma bela estrada que serpenteia o cânion ao longo do rio Piray, que às vezes se mostra muito violento provocando enchentes, destruição e mortes.


Ficamos hospedados no Resort El Pueblito, localizado a 2km acima da vila. É um empreendimento de muito bom gosto onde não existem televisões nos quartos e a internet é muito fraca. Talvez por isso, assim como pela qualidade das acomodações e da culinária, o lugar está sempre cheio de pessoas que querem se desligar um pouco dos agitos cotidianos para entrarem na frequência da natureza.







Hotel El Pueblito



Combinamos de fazermos a documentação do Forte de Samaipata e do Codo de los Andes com o guia de turismo, senhor Tibúrcio Mendez, da Samaipata Tours e imediatamente alugamos um carro e fomos ao Parque Arqueológico e Ecoturístico, situado a cerca de 9km da vila de Samaipata por uma íngreme estradinha com um visual exuberante que leva ao topo das montanhas e ao Fuerte de Samaipata, considerado como um centro cerimonial e administrativo pré-hispânico e que foi transformado em Patrimônio Cultural da Humanidade.

Vista Lateral do Forte Samaipata


As ruínas são consideradas como o terceiro maior conjunto de ruínas incaicas da américa, ficando atrás de Machu Picchu no Peru e Incallajta que fica na região de Cochabamba na Bolívia. Passamos todo o dia debaixo de um sol muito forte, percorrendo uma parte significativa das ruinas já escavadas e preparadas pelos arqueólogos bolivianos para receber visitação.






Ao redor existem muitas outras ruínas cobertas pela vegetação de floresta primária e secundária, um tesouro oculto e que deve continuar assim, pois seriam necessários muitos investimentos em projetos de exploração, pesquisa, escavações e restaurações para tornar público esse grande patrimônio arqueológico que provavelmente rivalizaria com a própria Machu Picchu.




Muitas horas depois, torrados pelo sol, cansados com as subidas e descidas e com o esforço em fotografar e filmar o máximo possível, nós percebemos que não haveria mais tempo de ir ao Codo de los Andes ou ao Bosque das Samambaias Gigantes neste mesmo dia. Visitamos a pequena vila que agora cresce a olhos vistos, impulsionada pelo turismo e especulação imobiliária.

Descobrimos que além de muitas agências de turismo, ecoturismo e pousadas, Samaipata tem neste período uma agitada noite, impulsionada por turistas e mochileiros de todas as partes do mundo.

Mario Friedlander

domingo, 6 de janeiro de 2013

Narrativas da Viagem


CUIABA  A SANTA CRUZ DE LA SIERRA


Ir de Cuiabá, o centro geodésico da América do Sul, a Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, não é tarefa das mais simples ou agradáveis. Apesar de muito falada, discutida e propagandeada, a rota terrestre legal que teoricamente liga as duas capitais entre si, pode ser tudo, menos uma rota turística, na verdade continua sendo uma rota de fuga, tráfico ou contrabando, onde a precariedade, a desinformação e o desinteresse predominam absolutos.

E olhe que já fiz essa rota no mínimo uma dúzia de vezes ao longo dos últimos 30 anos! Proponho-me a descrever a única rota terrestre legalizada que une o Mato Grosso a República da Bolívia, resumindo a melhor maneira de fazer essa cansativa e às vezes arriscada jornada.

De Cuiabá necessariamente você deve ir a Cáceres, pode ser por alguns dos ônibus diários que fazem esse trecho ou com vans que fazem o mesmo percurso, pessoalmente, prefiro o ônibus, considero mais seguro e tem horário fixo. As vans costumam ter horário mais ou menos fixo, mas saem buscando os passageiros nos locais combinados 2 horas antes da saída, isso significa que você tem que estar de prontidão com duas horas de antecedência. A vantagem da van é que ela busca e deixa no endereço combinado, fora isso, ela custa mais caro e demora mais que os ônibus.

Chegando em Cáceres , graças ao Mercosul, você não precisa mais ficar calculando o horário para conseguir ir no Posto da Polícia Federal para obter o papel de saída do Brasil, a não ser que você viaje com menores de idade, aí então, você deve escolher o horário de van ou ônibus que chegue ainda em tempo de você ir lá e conseguir seu documento, isso feito, você provavelmente vai ter que dormir em Cáceres para poder pegar, já no dia seguinte, a van que levará até San Matias, a primeira cidade boliviana depois da fronteira.
A van  mais garantida sai da Rodoviária antiga de Cáceres as 4:30 hs da manhã, tem outras que saem e chegam mais tarde, podendo dificultar ou mesmo impossibilitar sua ida rápida a Santa Cruz. Mas de qualquer modo, ao chegar na Corixa, um lugarejo na chamada terra de ninguém, entre a linha de fronteira dos dois países, você vai passar por uma ou mais barreiras do Gefron( Grupamento Especial de Policiamento da Fronteira) e pelas instalações do exército brasileiro e da receita Federal, que surgem como miragens na  pantaneira paisagem local.

Chegando na Corixa, a van que ia até San Matias, nos deixa por lá mesmo, na mão de taxistas bolivianos que estão sempre discutindo com os policiais brasileiros,  apesar da precariedade dos veículos, os taxistas costumam ser solícitos e cobram barato por uma corrida de 8 km na esburacada estradinha de terra.

Passada a singela barreira do exército boliviano, logo você chega em San Matias e terá que reajustar seu relógio em uma hora a menos e decidir se vai ao terminal de buses comprar ou esperar abrir os guichês das duas empresas bolivianas que fazem o percurso até Santa Cruz ou se você já fica no caminho em frente ao posto da Migracion Boliviana que abre às 7:30 hs e fará sua papeleta de entrada, sem a qual você terá muitos problemas durante a viagem. Resolver esse pequeno dilema nem sempre é fácil. Se você for direto comprar as passagens e depois ir a Migracion isso vai significar que terá que tomar táxi 3 vezes antes de embarcar no ônibus e eventualmente enfrentará uma pequena fila na Migracion; por outro lado, se você for direto na Migracion e ficar esperando entre uma a duas horas até o posto abrir, você com certeza será um dos primeiros da fila e depois de conseguir sua entrada na Bolívia, corra de táxi para o terminal de buses e compre logo seu boleto, às vezes você  chega lá e eles já acabaram e você  terá que esperar até o outro dia para ir a Santa Cruz... passar o dia e a noite em San Matias é um programa que não desejo aos meus amigos nem aos inimigos.

Pois é, cansou de ler a respeito, imagina que a dita viagem, jornada, travessia, aventura, encrenca, nem sequer começou!

Agora, com o boleto na mão, embarque no ônibus boliviano, que muitas vezes é até bonito por fora, mas estragado por dentro, então, boa viagem. Você tem pela frente 890 km de estradas muito ruins, motoristas ora simpáticos e ora truculentos que não hesitarão em abandonar você, se por acaso se atrasar numa das paradas em busca de algum banheiro, coisa muito rara de encontrar, e se o ônibus não quebrar como comumente acontece, você vai ter medo da velocidade com que eles andam em veículos e estradas tão precárias. Mas se tudo correr bem, você até vai conseguir almoçar um arroz com feijão e bife suculento  em San Vicente, depois mais uma parada em San Ignácio e uma pequena parada em San Javier, onde o motorista, nesta nossa viagem, queria deixar para trás duas turistas brasileiras que foram procurar um banheiro.

Finalmente, por volta da meia noite você chegará ao Terminal Bimodal em Santa Cruz, terá que escolher um taxi e sair rápido em busca de um dos muitos hotéis e alojamentos existentes nas proximidades, mas fique esperto que o lugar é meio perigoso.
E assim, depois de uma longa e cansativa viagem, você estará a cerca de 1200 km de Cuiabá e ficará pensando se a volta será como a ida ou pior, ou se você, ao invés de pegar um ônibus para San Matias, pega logo o trem que vai até Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e volta mais tranquilo e seguro.

Enfim, não é tarefa simples ou agradável chegar em Santa Cruz de La Sierra saindo de Cuiabá por via terrestre em transporte coletivo. Com carro próprio isso fica um pouco mais fácil, só não esqueça de levar a documentação do veículo para fazer o salvo-conduto em San Matias, alguns brasileiros entram sem ele e vão no máximo até San Ignácio, a partir daí se você for parado, e você será parado, e não tiver o salvo conduto, estará em apuros e mesmo pagando propina corre o risco de ter seu carro apreendido, só vai depender de qual tipo de polícia boliviana fizer a abordagem.

Em relação à documentação pessoal exigida, essa é a parte mais simples, você precisa de Carteira de Identidade (RG) atualizada, e o certificado Internacional de Vacinação contra a Febre Amarela, que pode ser solicitado com a Anvisa, você pode fazer o agendamento pela internet e depois ir ao Posto da Anvisa dentro do Aeroporto em Várzea Grande, mas antes tem que ir a algum Posto de Saúde e tomar a vacina com no mínimo 10 dias de antecedência. Se  você tiver passaporte, pode viajar com ele também.   No caso de estar viajando com filhos ou menores, você precisa das  autorizações e dos documentos pessoais deles. Uma dica é sempre levar fotocópias autenticadas dos documentos, em caso de roubo ou perda dos originais, isso vai ajudar muito.

Lembre-se que vai precisar trocar seu dinheiro brasileiro por dólares americanos e por Pesos Bolivianos, os dólares você pode trocar em casas de câmbio ou mesmo no Banco do Brasil. Nesta viagem o valor da compra do dólar estava mais vantajoso no Banco do Brasil, por incrível que isso possa parecer, além do mais, durante o final do ano, as casas de câmbio ficaram sem nenhum dólar, tudo foi vendido para um turbilhão de cuiabanos que foram viajar ao exterior. O Peso Boliviano ou simplesmente Boliviano pode ser trocado em San Matias ao valor de Bs 3,00 para cada real, em Santa Cruz conseguimos ao valor de Bs 3,14. Se quiser trocar em Santa Cruz tem muitas casas de câmbio em redor da praça principal da cidade, conseguimos trocar nossos reais pelo mesmo valor que estava em Cuiabá, R$ 2,20 para cada dólar.

Santa Cruz é uma metrópole bem agitada, com trânsito intenso e vários atrativos culturais e turísticos bem interessantes, mas a Bolívia esta crescendo muito e já não é tão barata como dizem, principalmente em Santa Cruz. O custo de vida aqui é muito alto e você vai gastar quase o mesmo que gastaria no Brasil, fique o tempo necessário para conhecer o básico e siga em frente, quanto mais longe da fronteira e da influência do Brasil, melhor. A Bolívia é uma nação espetacular e com preços bem atrativos, portanto, pé na estrada.

Santa Cruz de La Sierra 04/01/2013
Mario Friedlander

sábado, 5 de janeiro de 2013